por Felipe Paiva*
Chico Velho, Velho Chico. Sempre que posso, retorno a você. Em épocas de férias, marcho desesperado em busca desse sertão fluvial. Sento praça logo ali, em algum lugar entre Sergipe e Alagoas, essas terras irmãs separadas pelo São Francisco, nosso pai e nossa mãe. Ladino indolente, desligo bem desligado meu celular e aviso a todos os colegas de trabalho: estarei em terras remotas nas férias, sertão brabo, terra rachada, mal tem luz elétrica, internet nem pensar, não conseguirei responder às suas mensagens – por favor, aguardem o meu retorno. Alguns dos meus camaradas me olham com compaixão. São quase todos sudestinos; acreditam fácil no conto da escassez. Se soubessem o tamanho da mentira que lhes conto. Acadêmicos são assim mesmo, um bocado ingênuos às vezes.
Eis que, nessas férias, eu cometi um erro terrível: fui olhar meus emails acumulados. Me arrependi amargamente, pois fiquei sabendo da maior das urgências, algo que precisa imediatamente da opinião de um especialista, um tudólogo bem apetrechado em sabença para nos explicar e guiar. É o tal do decolonial e da sua crítica. Aparentemente, um grupo de pesquisadores descobriu agora que é possível criticar o decolonial, ou o pós-colonial, ou o contracolonial ou o anti-colonial. Para não incorrer no risco da simplificação epistemológica, juntemos tudo no mesmo mungunzá: o de-pós-contra-anti-colonial e seus inimigos diplomados.
De início fiquei avexado. Mas depois, entre um peixe na brasa e outro, um mergulho e outro, uma e outra prosa com meus amigos sertanejos, fui acalmando meu espírito. Me ocorreu a hipótese absurda de que a academia é um mercado de palavras, a feira do trava-língua. Que a tal da teoria é, muitas vezes, apenas a política identitária de quem passou no vestibular. Conceito é outro nome para fetiche, e o fetiche maior é esperar que um caboclo quilombola tenha as mesmas pretensões epistemológicas de um cientista. Os registros são diferentes, ainda bem.

Fetiche é mercado e mercado é público. No mercado das ideias, as polêmicas vazias, logográficas, são essenciais. De um lado, o paternalismo tutelar de intelectuais que acham que a sua missão é legitimar a fala e a produção de conhecimento de populações originárias e/ou marginalizadas. De outro lado, o professor que acha que todos fizeram doutorado, reclamando de ausência de rigor e método em gente que não se pretendia rigorosa (ainda bem). As polêmicas intelectuais logográficas servem não para a inovação, a reinterpretação ou a descoberta científica e filosófica. Sua função é outra, é demarcar território, escarificar identidade, tarrafear público, mercado consumidor. Esse mercado consumidor, felizmente, é muito crítico e instruído, o suficiente para não se deixar levar por coisa pequena.
Divagava eu nestas reflexões, corpo molhado ao sol, quando Heleno veio ao meu encontro. Morador de Porto da Folha, cidadezinha do lado sergipano da fronteira. Em tempos idos, foi cacique do povo Xokó. Perguntei a ele o que achava de Safatle. Meu amigo arregalou os olhos e perguntou: “Que moléstia é essa? Doença braba?”. Talvez minhas demandas não sejam tão urgentes assim. Desliguei novamente o celular e fui tratar de mariscar outras miudezas com meus malungos.
*Professor de História da África junto ao Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenador do Centro de Pesquisas Caliban – Experiências coloniais comparadas